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Retorno ao Quarto Poder


Sábado, Fevereiro 18, 2006
O ESCRITOR ANALFABETO




Eu tenho duas mãos e todo o sentimento do mundo
Carlos Drummond de Andrade



Na arte que dominava nada era de seu pertence. Nem a cafeína que ingeria diariamente não escapava da rejeição natural de seu corpo por tudo que interferisse ao movimento continuo que sua mão fazia com o lápis nas milhares folhas de papel. Quando decidia escrever letras no papel, não compreendendo ao certo o significado das mesmas,até porque era analfabeto, sentia uma dor estomacal insuportável. Era como se fosse um castigo por ele ter fugido da escola sabendo que estava destinado a vida de escritor. Ao longo da tarde quando terminava sua missão, chamava seu filho Roberto, que era alfabetizado, para ler o texto que para ele mais parecia um amontoado de desenhos disformes que nada acresciam em sua vida. Mas mesmo assim continuava dando forma as disformes letrinhas que diversas vezes o fizeram dar boas gargalhadas. Exemplo disso foi quando o jornal local de Araxá anunciou que seu livro A Nova Ética agregada ao Novo Capital estava entre os dez livros mais lidos entre os cientistas políticos de todo o mundo.Uai, que besteira é essa, sô! Exclamava ele risonho por não entender como aquele amontoado de rabiscos podia ter significado para a classe de cientistas e políticos. E o mais espantoso para ele foi quando o Ministério da Educação decidiu adotar seu livro de Gramática no Ensino Fundamental. Como assim? para o escritor-analfabeto não havia razão para esse fato sucedesse. Afinal, ele era analfabeto.
Os maiores problemas surgiram quando os convites para ele palestrar começaram a entupir sua caixa de correio. Pesadelo? Não, era pior que isso, o escritor-analfabeto estava situado em uma realidade inconcebível para qualquer ser humano. E não tinha como fugir, pedir ajuda ou abandonar o oficio. Todas as tentativas fracassaram e quando quebrava o lápis ou jogava a caneta no lixo seu estômago ferroava como se ele tivesse engolido um milhão de maribondos. Uma vez tentou decepar a mão direita e terminar de vez com isso. Só que ao chegar ao hospital,levado pelo filho, o ferimento havia sumido, sem marcas e sem vestígio de auto-flagelo. O homem sentiu-se impotente diante de tudo e decidiu regressar humildemente ao seu estado de escritor-analfabeto criando assim os melhores livros que já foram escritos e nunca lidos por ele.


Lisa Alves


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Sábado, Fevereiro 04, 2006
NA BOCA DO POVO




Na pacata mente do cidadão morava apenas pequenos problemas: contas a pagar, o futuro dos filhos e um bom lugar no céu. No domingo como era de costume ele deitou em sua rede. Depois de uma semana inteira de missão comprida aquilo era apenas uma parcela do que Deus tinha para ele no Paraíso Eterno.
Um dia a mulher chegou toda cabreira com medo de perguntar o que não devia:

Homem, o que é Sistema?

Onde diabo você ouviu isso, mulher? Respondeu com uma pergunta como sempre fazia quando não sabia o que responder.

Ué, na televisão. Respondeu ela como se isso fosse obvio.

Já falei para você parar de assistir novela, só ensina o que não presta!

Foi na novela não, homem! Foi no jornal.

Ah, então não esquenta, mulher! Deve ser nome de algum terrorista ou mais um da gangue do Dr, Marcos Valério.


Lisa Alves

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[::..Uma parte de mim..::]
:: Quem é Lisa Alves?
:: Sou estudante de jornalismo, tenho 23 anos e adquiri um estranho hábito de transformar minhas idéias em textos. Não concordo com a posição mercadológica aplicada à mídia atual. E creio que o jornalismo poderá sofrer uma mutação em seu perfil e assumir o papel de guardião do povo. No entanto isso só acontecerá se os próprios jornalistas e a sociedade lutarem por isso.
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